A velocidade da mudança: uma análise sobre o filme Ford x Ferrari

Em 1966, Henry Ford II, herdeiro e presidente da Ford Motors Company, faria uma façanha única na história do automobilismo. Pela primeira vez, uma marca americana conquistaria a corrida mais desafiadora e estimada do mundo, as 24 horas de Le Mans. 

No filme Ford x Ferrari é possível acompanhar os bastidores dessa disputa e o que fizeram Henry e seu líder de equipe Carroll Shirley, junto ao talentoso piloto Ken Miles, atingirem essa grande conquista utilizando o modelo Ford GT40. Além desta história brilhante de superação e empreendedorismo, ficam nas entrelinhas muitos aprendizados quando se fala em inovação dentro de uma grande empresa.

 Filme de 2019 
é estrelado por Matt Damon e Christian Bale


A ideia da criação de uma equipe de carros de corrida Ford veio por uma sugestão do setor de marketing da cia e também por uma rixa que havia com a Ferrari, que, na época, era quem dominava as competições automotivas, chegando a um carro e equipe próximos da perfeição.

A Ford, que ficou conhecida por construir carros em larga escala, no modelo de produção de linha de montagem em série, teria que se ajustar aos princípios de gestão de um time de carros de corrida, onde se aplicam conceitos completamente opostos aos do sistema Ford, com alta customização, muita abertura para novas ideias, aceitação ao erro, cabeças rebeldes e criativas para testar, ajustar e re-testar constantemente o carro no decorrer do processo. Isto provocou muito atrito e problemas ao projeto, que acabou demorando mais para chegar ao objetivo, gastando mais recursos e tempo do que o esperado. 

Isso ocorre muito nas empresas até os dias atuais, quando se fala em inovação e o principal motivo chama-se cultura organizacional. As empresas estão acostumadas a um modelo de gestão focado na eficiência, onde se preza por padronização de processos, uma hierarquia mais rígida focada em comando e controle, pouca abertura para ideias e nenhum espaço para o erro. O mundo do “reduzir custos e aumentar margem”.

Isto não está incorreto e é como muitos negócios foram bem sucedidos até hoje. No entanto, vivemos hoje em um mundo VUCA, acrônimo em inglês que significa volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, onde a velocidade da mudança é cada vez maior. Nesta chamada “nova economia”, o único caminho em que as empresas têm alguma chance de tornarem-se competitivas e relevantes no decorrer do tempo é desenvolvendo a inovação com uma competência organizacional, e isso ocorre quando cultura, estratégia e processos estão alinhados, sempre olhando para os conceitos de inovação.

Quando falamos em cultura, o principal pilar é o comportamento das lideranças, ou seja, aquilo que os líderes demonstram em suas atitudes (e não o que falam) no dia a dia é o que norteará o passo de toda a empresa e a forma como todos comportam-se em determinada situação.

Uma das cenas do filme chama a atenção e ilustra o tema com um episódio simples que simboliza bem o caso prático, onde um envelope passa pela mão de mais de seis pessoas até atingir seu destino final dentro da Ford, evidenciando uma empresa extremamente burocrática. Além disso, diversas vezes o time de carros de corrida teve as suas decisões bloqueadas pelos executivos da matriz, demonstrando a dificuldade de desenvolver um projeto inovador em uma grande empresa.

Na época, Henry Ford II só conseguiu vencer estas barreiras por seu pioneirismo e a sua liderança. O que estava fazendo, sem saber, era desenvolver o que hoje chamamos de inovação aberta, ou seja, a criação de uma estrutura apartada da empresa, mais aberta ao mercado, desenvolvendo projetos inovadores, justamente uma forma utilizada para evitar bloqueios a este tipo de projeto.

Muitas empresas hoje estão seguindo por este caminho, tentando abrir-se ao mercado, contaminando-se pela “cultura startup”, para seguirem se renovando e aprendendo com os conceitos das organizações mais bem sucedidas de hoje como Google e Spotify, entre outras, onde imperam os conceitos de estruturas mais abertas, atuando em redes, com equipes auto-geridas, ágeis, com baixa hierarquia e centralização no cliente. Mas para que isso tudo funcione, é preciso uma cultura forte. 

Parabéns a Henry Ford e a todo o seu time que, na época, foi inovador, corajoso e disruptivo, quebrando recordes e uma hegemonia da Ferrari. 


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